Com uma produção de vinhos recente em comparação aos países europeus, a Austrália afirma sua identidade em múltiplos e distintos terroirs

Classificar a Austrália como um país de dimensões continentais pode até soar clichê, mas define perfeitamente essa enorme ilha na Oceania. E é essa vasta extensão a responsável pela variedade impressionante de estilos de vinhos que apresenta a cultura vitivinícola da terra dos cangurus, algo visto em poucos lugares no mundo. Da quente e semiárida região de Riverland à Tasmânia, porção de terra de clima gelado localizada mais ao sul do território, a Austrália tem terroirs de características completamente diferentes e que, por isso, desenvolvem bebidas distintas umas das outras. Como é um país relativamente jovem – o início da colonização britânica é da segunda metade do século XVIII -, a vitivinicultura australiana também é muito mais recente em comparação, por exemplo, com os produtores europeus, o que a coloca como um dos principais polos do chamado “Novo Mundo” do vinho, juntamente com Chile, Argentina, Estados Unidos e África do Sul, lugares em que a produção vinícola se estabeleceu há pouco tempo. Atualmente, a produção de vinhos australianos está entre as 10 maiores do mundo, girando em torno de 1 a 1,3 bilhão de litros por ano, segundo dados internacionais do setor, o que posiciona a Austrália à frente de vários países tradicionais da Europa, como Portugal. Há, ainda, um forte perfil exportador, que faz com que metade dessa produção seja vendida ao exterior, inclusive para o Brasil, que segue uma tendência de crescimento de consumo nos últimos anos, com o vinho australiano conquistando aos poucos o paladar dos brasileiros.

Entre videiras e estudos

A vitivinicultura na Austrália tem na figura de James Busby (1801-1871) um desbravador. Nascido na Escócia, formou-se em enologia na França e, quando sua família foi enviada pelo governo da coroa para Sidney, em Nova Gales do Sul, observou o grande potencial vitivinícola que havia naquele lugar tão distante. “Em 1830, ele lançou uma cartilha para os produtores locais, intitulada ‘Um manual de instruções simples para o plantio e cultivo de vinhedos e para a produção de vinho em Nova Gales do Sul’, demonstrando sua paixão pela vitivinicultura”, explica Luiz Roberto Correa Lima, sommelier Adega Cave Noble BigLar. Porém, o grande legado de Busby viria do resultado da sua viagem aos vinhedos da Espanha e da França, realizando a coleta de mais de 600 variedades viníferas, que foram doadas para a então colônia britânica. As videiras foram plantadas no Jardim Botânico de Sydney, onde pequenos agricultores podiam, gratuitamente, buscar mudas que serviram de embrião para vitivinicultura australiana. A viagem rendeu outro livro, intitulado “Diário de uma viagem por alguns dos vinhedos da Espanha e da França”. “Ao retornar para a Austrália, em 1833, ele foi para o Vale do Hunter, na propriedade do seu pai, onde plantou 365 variedades de uvas diferentes. Ele também publicou o ‘Relatório sobre as vinhas introduzidas na colônia de Nova Gales do Sul, no ano de 1832’”, continua Luiz Roberto.

Regiões emblemáticas

Duas das regiões mais notáveis para o vinho australiano são Barossa Valley e Yarra Valley, e olhar para elas é importante para entender essas variações do terroir australiano. Barossa está na região conhecida como South Australia, tem clima mediterrâneo, em que as estações são bem definidas com verões quentes e secos, e invernos amenos e chuvosos, com boa amplitude térmica entre dia e noite.
Segundo o sommelier, o solo de Barossa é bem diverso, mas apresenta grandes trechos de baixa fertilidade, favoráveis ao cultivo de uvas viníferas. É por lá que estão localizadas as vinhas mais antigas da Shiraz australiana, com mais de 130 anos. “São plantas com baixíssimo rendimento, mas que oferecem uvas com alta concentração”, avalia Luiz Roberto.
Barossa produz alguns dos vinhos da Shiraz mais potentes e austeros do mundo. Das características da bebida produzida nessa região australiana, Luiz Roberto destaca os aromas intensos e que ressaltam frutas muito maduras, geleia de amoras, ameixa-passa, chocolate, café, moca e especiarias doces (cravo). “Há notas de baunilha e carvalho com taninos firmes e macios, em equilíbrio com o álcool, geralmente muito alto, porém integrado com a acidez, resultando numa degustação extremamente agradável e inesquecível ao paladar”, pontua o sommelier.
Ele explica, ainda, que o famoso vinho GSM, um blend de Grenache, Syrah e Mourvèdre, é muito produzido em Barossa, assim como o blend de Shiraz-Cabernet, que são bastante populares e de qualidade. Isso é resultado da influência da cultura vitivinícola do Vale du Rhône, no sul da França, onde a Shiraz (conhecida como Syrah) também é a principal casta de uva.
Já Yarra Valley, região nos arredores de Melbourne, segunda maior cidade australiana, caracteriza-se por um clima mais frio, muito propício para o cultivo da Pinot Noir e da Chardonnay. “Os tintos de Pinot Noir de Yarra, ao estilo da Borgonha, são leves, frutados e elegantes, com estilo bem diferente dos Shiraz de Barossa. Os brancos de Chardonnay são frescos, com boa acidez e notas de frutas brancas e figo”, explica Luiz Roberto.