A cozinha típica mato-grossense ganha ainda mais sabor e variedade com a chegada das festas juninas, em uma época do ano repleta de nostalgia

A festa junina está no coração dos brasileiros. As bandeirinhas coloridas, a fogueira, a dança da quadrilha, o casamento caipira, o correio elegante e os trajes típicos estão em um lugar especial da nossa memória afetiva, resgatando momentos de alegria com a família reunida, amigos de escola e vizinhança. Mas o arraial junino ganha ainda mais em autenticidade com aquela mesa farta de dar água na boca, repleta de pratos salgados, doces, quitutes e bebidas tradicionais dessa época do ano, tão aguardada por crianças e adultos. Aliás, muitas das delícias servidas nas comemorações juninas ficam meio “sumidas” nos outros meses, então assim dá para matar a saudade. Apesar de várias dessas guloseimas como bolos, paçoca e quentão serem servidas em “arraiás” de norte a sul, a culinária junina tem seus tesouros regionais, e a cozinha mato grossense e pantaneira, com sua identidade própria, genuína e saborosa, entrega ainda mais originalidade quando preparada em meio a bandeirolas e chapéus de palha. Reviver as recordações despertadas pela comida junina fica mais gostoso quando a tradição é enriquecida pela inovação, uma iniciativa interessante e que, no caso da rica gastronomia pantaneira, passa pelas mãos de especialistas como o chef Marcelo Cotrim, do BigLar. “Quando valorizamos pratos tradicionais, sejam eles do dia a dia como o arroz Maria Isabel e a farofa de banana, ou das festas como canjica, arroz doce e preparações com milho, fortalecemos a identidade”, reflete.


Memórias afetivas à mesa

As festas juninas da infância deixaram registros marcantes na lembrança daqueles que hoje em dia são adultos, e o vínculo com a comida preparada talvez seja o mais forte na relação sentimental com essa festança de alma caipira. Cotrim conta que suas recordações estão muito ligadas à família e à cozinha cheia. “Lembro da paçoca de pilão sendo feita, do cheiro da carne seca, da farofa de banana e do arroz Maria Isabel reunindo todo mundo à mesa”. Os doces servidos nas festas juninas de antigamente também são preciosos em suas lembranças, com preparações como: doce de caju, cachorrada, arroz doce e canjica, que trazem uma memória muito afetiva dessa época. “E claro, o milho aparece, em preparos tais quais: bolo, curau e pamonha, sempre ligados a esse ambiente de partilha”, diz. Segundo Cotrim, a gastronomia de Mato Grosso e do Pantanal tem uma identidade construída no dia a dia, e as festas juninas refletem isso em pratos como: arroz Maria Isabel, carne seca com banana verde e farofa de banana, que traduzem muito bem a cultura regional, e que convivem com preparações tradicionais dessa época, tais quais: bolo de milho, pamonha, curau, canjica e arroz doce. “E estão muito presentes nas festas de santo os quitutes regionais, como: bolo de arroz, bolinho de queijo cuiabano e o biscoito francisquito”.

Sabor original

A comida pantaneira, em sua essência, foi formada por um “DNA culinário” que é um tripé de influências e contribuições dos indígenas, dos europeus (especialmente de portugueses e espanhóis) e dos vizinhos sul-americanos, na chamada cultura boiadeira. Esses traços, temperos e modos de preparo aparecem nos pratos amados pela população da região. O uso de técnicas mais artesanais refletem em sabores ligados à origem, uma marca dessa cozinha, explica Cotrim. “O arroz Maria Isabel tem seu modo próprio de preparo, a farofa de banana traz um equilíbrio muito característico entre doce e salgado, e os quitutes como bolo de arroz e bolo de queijo cuiabano carregam uma identidade muito regional”, avalia. E mesmo as preparações com milho, como pamonha, curau e bolo, da mesma maneira difundidas em outras regiões do Brasil, também ganham características da cozinha mato-grossense, pois convivem com “essa base forte da nossa cozinha do dia a dia”, esclarece.

Inovação e identidade

O equilíbrio entre tradição e inovação é necessário para manter a influência da culinária regional no dia a dia das pessoas, mas isso não deve descaracterizar a essência dessas receitas centenárias. “Inovar é interpretar sem perder a essência. O equilíbrio está no respeito à origem, e a inovação precisa somar, não substituir”, afirma Cotrim. Ele explica, inclusive, já ter trabalhado releituras com paçoca de pilão e arroz Maria Isabel, trazendo novas apresentações e texturas, mas mantendo o sabor e a identidade original. “Também explorei versões contemporâneas de canjica e arroz doce e até mesmo de quentão, que ganhou um toque de Canjinjin (bebida quilombola tradicional de MT), inclusive em conteúdos desenvolvidos com o BigLar, sempre buscando valorizar o ingrediente e a memória afetiva”. Preservar essas receitas é a melhor maneira de manter a cultura pantaneira dentro de uma gastronomia que conecta gerações e mantém viva a história de um povo. “Nas festas juninas isso ganha ainda mais força. É um momento de resgate, de valorização e de continuidade, e é por meio da cozinha que garantimos que essa cultura siga viva nas próximas gerações”, completa Marcelo Cotrim.


Tradição junina

Com raízes nas celebrações europeias do solstício de verão, a festa junina chegou ao Brasil durante o período colonial, trazida pelos portugueses. Ao ser incorporada ao calendário religioso, passou a homenagear três santos (Santo Antônio, São João e São Pedro) e, ao longo do tempo, consolidou-se como uma tradição que une ensinamentos religiosos à valorização da cultura popular brasileira. A forte ligação com o ambiente rural explica a parte gastronômica da celebração, pois as festas juninas no Brasil coincidem com a colheita de alguns alimentos, tais quais: o milho, amendoim, pinhão e uva que originam pratos como: a canjica, a pamonha, o bolo de milho, o curau, o pé de moleque, pinhão cozido ou assado. As bebidas, como o quentão e o vinho quente, surgiram para contribuir com o aquecimento dos participantes.