Da rústica culinária portuguesa aos frios da América do Norte cada lanche carrega sabores dos melhores destinos gastronômicos do mundo
Um dos formatos mais populares de refeição rápida no mundo, o sanduíche é extremamente versátil, adaptando-se a diversas culturas. Essa variedade de possibilidades faz com que ele transcenda o atributo alimentar e seja considerado uma forma de expressão cultural ao redor do globo.
O aperitivo como conhecemos atualmente se popularizou com John Montagu (1718-1792), 4º Conde de Sandwich, cidade portuária do condado de Kent, na Inglaterra. Segundo os relatos, o nobre adorava jogar cartas, então pediu para ser servido com uma refeição prática: carne entre fatias de pão. Assim, ele poderia comer sem talheres e continuaria com uma mão livre para segurar as cartas.
Desde então, os sanduíches foram incorporados à rotina das pessoas. A popularização não se deu apenas pela praticidade, mas também pelas experiências alimentares únicas que proporcionam. Com toda essa popularidade, esses lanches saborosos promovem encontros culturais estimulantes, ideais para uma viagem gastronômica.
Estilo Escandinavo
Na Escandinávia, além de lagos cristalinos e fenômenos naturais como a Aurora Boreal, a culinária também é marcante. Os sanduíches abertos, ou seja, com apenas uma fatia de pão, são os mais populares. A Toast Skagen, ou Torrada Skagen, é um aperitivo criado na década de 50 pelo chef sueco Tore Wretman, de forma improvisada. Durante uma viagem de barco a Skagen, na Dinamarca, o chef preparou um lanche apenas com o que tinha a bordo. O resultado foi um pão branco torrado com manteiga, coberto com uma salada cremosa de camarão chamada skagenröra, limão e ovas de peixe.
Os créditos dessa criação ficaram para a Suécia, mas a Dinamarca também tem um sanduíche próprio que é extremamente popular nos países escandinavos.O Smørrebrød tem como um de seus ingredientes o pão de centeio, que está presente na cultura dinamarquesa desde a Era Viking. Manteiga, camarão, peixes, ovos, queijo, carnes, vegetais e ervas frescas são outros ingredientes que podem fazer parte de um dos sanduíches abertos mais populares da Europa.
Clássicos ibéricos
Na rústica culinária portuguesa, o Prego é um dos sanduíches mais populares. Com uma carne de vaca macia e tempero aromático, diz a lenda que o nome vem do costume de bater no bife com um martelo para amaciá-lo. As versões mais aceitas, porém, dizem que o nome vem de seu criador, Manuel Dias Prego, que era dono de uma taberna no final do século 19.
Por sua popularidade em terras lusitanas, existem diversas variações do lanche. Seja na capital Lisboa, na bonita e relaxante região rural do Alentejo, ou nos paradisíacos arquipélagos da Ilha da Madeira e dos Açores, o Prego marca presença com ingredientes diferentes, mas mantendo a essência que assegurou sua fama ao longo de mais de um século.
Na vizinha Espanha, a simplicidade também é a chave para um dos sanduíches mais apreciados do mundo. O Bocadillo de Jamón consiste em uma baguete recheada com presunto, que pode ser o Jamón Serrano, que é o mais produzido em terras espanholas, ou o Jamón Iberico, que já foi considerado um dos melhores embutidos do mundo. É possível encontrá-los em locais como o Pignic Ibérico, no centro de Madrid, ou nas regiões produtoras, como Jabugo, em que bares próximos à Plaza de Abastos, onde fica o mercado municipal, servem Jamón local.

Glamour e tradição
Europa adentro, dois países caracterizados pelo glamour transportam a elegância e sofisticação para suas respectivas culinárias. Na França, o Croque-Monsieur, receita que traz pão de forma, presunto, queijo e molho béchamel, tem uma superfície gratinada e aspecto crocante.
Segundo a versão mais popular sobre sua origem, ele foi criado por acidente quando uma bandeja de sanduíches foi deixada muito perto do fogão em um café parisiense. No início do século 20, a menção ao sanduíche no livro “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, ajudou a consolidar sua popularidade na Cidade Luz. O lanche mais simbólico da Belle Époque pode ser encontrado em restaurantes e bistrôs da capital francesa, como o tradicional L’Épi d’Or, com seu ambiente intimista e cardápio emblemático.
Seguindo para a Itália, o Panino con Porchetta é um sanduíche fortemente ligado ao centro do país. Porchetta é uma carne de porco desossada, assada lentamente com alho, alecrim e outras ervas aromáticas. O lanche, portanto, é a carne fatiada e servida dentro de um pão crocante.
O consumo da Porchetta está presente na região há séculos, possivelmente desde períodos pré-romanos. Atualmente, esse legado se mantém vivo em paninis servidos no centro histórico de Ariccia, onde as famosas fraschette (tabernas populares típicas da região do Lácio), como Osteria Mastro Titta e Osteria Dar Vignarolo, oferecem versões autênticas do aperitivo. Assim, além do Coliseu, da Cidade do Vaticano e de diversos outros pontos turísticos, Roma ainda oferece um sanduíche que carrega consigo a tradição cultural da Itália em seus ingredientes.

Pães e frios
Depois de fazer um tour pelos sanduíches europeus, desembarcamos na América do Norte para falar do Maine-Style Lobster Roll. A lagosta era parte fundamental da alimentação dos pescadores da região desde o século 19, e esse ingrediente reforça a ligação cultural com a região de New England, nos Estados Unidos.
Atualmente, a carne de lagosta é servida fria e misturada à maionese em um pão tostado para formar um dos mais emblemáticos lanches estadunidenses. A pequena cidade de Kennebunkport abriga algumas das melhores versões do aperitivo.
Atravessando a fronteira com o Canadá, em Montreal, encontra-se mais um popular sanduíche de frios. O Montreal Smoked Meat, que significa carne defumada de Montreal, é um lanche semelhante ao pastrami, mas com temperos e preparo distintos.
Um imigrante romeno chamado Reuben Schwartz teria sido o responsável por começar a produzir carne defumada em solo canadense, em 1928. Com sabor intenso típico da Romênia e as influências da culinária canadense, o sanduíche é o complemento culinário ideal para a charmosa região central de Montreal, perfeito para ser saboreado em lanchonetes como o Schwartz’s Deli e o Dunn’s Famous.

Resistência criativa
No Vietnã, o Bánh Mì é mais do que um sanduíche, simbolizando o fim do colonialismo europeu no país, no final da década de 1950. Após o período de dominação francesa, as influências estrangeiras na alimentação, como o pão, foram enriquecidas por ingredientes locais, como coentro, picles, molhos e outras possibilidades que surgiram ao longo dos anos.
Assim, a história do sanduíche mais popular do Vietnã está fortemente ligada ao passado de seu povo. Parte da tradição do país, conhecido por seus templos religiosos e uma cultura riquíssima, expressa-se também na culinária.

