Histórias que transformam ingredientes em memórias inesquecíveis e mantêm vivas as tradições que moldam nossa identidade

A escrita em cadernos antigos e folhas soltas é um convite para revisitar histórias que atravessam gerações. Esse exercício de memória nos transporta para cozinhas onde o preparo lento dos alimentos cria um ambiente de acolhimento. É um sentimento que ganha ainda mais significado em julho, mês em que celebramos, no dia 26, o Dia dos Avós. A data é um reconhecimento à sabedoria e ao afeto que sustentam nossas origens. Muitas dessas receitas sobrevivem apenas na lembrança afetiva de quem aprendeu, desde cedo, a observar o ritual do preparo. São doces que funcionam como um elo entre o passado e o presente, transformando ingredientes simples em heranças emocionais. Cozinhar sugere um exercício de afeto, em que o ritmo do preparo favorece a transmissão de valores que ajudam a desenhar a identidade familiar. A cozinha torna-se, assim, um espaço onde o tempo parece pausar e as vivências ganham forma, cor e textura, honrando a trajetória de quem chegou antes na nossa história

Heranças emocionais

Para a publicitária Viviane Rossi Zitelli, essas memórias são ancoradas pelo Bolo em Calda da avó, dona Olga Rossi Brandão. “Sem dúvida, o Bolo em Calda é o que mais me leva de volta à casa da minha avó. Ele tem o poder de atravessar o tempo. Basta sentir o cheiro ou dar a primeira colherada para que tudo volte: a mesa posta, o cuidado nos detalhes e aquela sensação de acolhimento que só existia ali. Era mais do que um doce, era uma forma de carinho traduzida em receita.” Viviane recorda que a avó possuía um jeito singular de cozinhar, em que a intuição guiava as medidas. “Minha avó guardava pequenos segredos em todas as suas receitas, daqueles que nunca eram completamente revelados. Às vezes, no meio do preparo, acrescentava algo a mais e dizia com naturalidade: ‘coloquei mais um ovo, porque estão pequenos’. Era com este jeitinho único e cheio de afeto que morava a magia e, talvez, o verdadeiro sabor das lembranças,” revela. Sobre a primeira memória, Viviane compartilha que ela é muito viva: “A cozinha sempre aquecida, o som da colher de pau batendo e o perfume doce que tomava a casa inteira. Eu ficava por perto, observando cada movimento, esperando o momento em que ela me deixava provar um pouquinho da massa ainda crua ou o bolo ainda quente. Era um ritual silencioso, mas cheio de afeto, daqueles que a gente só entende completamente depois de adulto.” A publicitária conta que a receita vive hoje entre memória e papel. “Parte dela está anotada em um caderno antigo, com a caligrafia delicada da minha mãe, já um pouco apagada pelo tempo. Outra parte eu carrego comigo, porque aprendi observando, repetindo, sentindo o ponto e a quantidade de ovos certa. Ela nunca foi apenas escrita, foi transmitida.” Ela conta que a avó Olga tinha seus rituais muito próprios na hora de preparar uma receita. “Usava sempre as mesmas travessas já marcadas pelo tempo e uma colher de pau que parecia fazer parte da receita. Não havia pressa. Ela respeitava o tempo de tudo, mexia com paciência e dizia que o segredo estava no amor com que ela fazia. Sempre acrescentava um detalhe sem medir, confiando mais na intuição do que em quantidades exatas. Acho que o verdadeiro segredo era esse: fazer com carinho.” Com os olhos marejados, Viviane diz que hoje, esse doce é uma forma de manter a avó viva nas pequenas coisas. “É memória, é afeto, é pertencimento. Sempre que preparo, sinto como se estivesse recriando um momento ao lado dela. Minha avó sempre dizia que suas receitas eram secretas e únicas. Faço questão de compartilhar a receita com a família, não só o modo de preparo, mas a história que vem junto. Porque algumas receitas são, na verdade, heranças emocionais.”

Sabores que unem gerações

Outra neta orgulhosa da avó, e de suas receitas, é a advogada Silvana Moraes, que lembra com carinho do bolo de macaxeira, também conhecido como mandioca ou aipim, que sua avó, dona Orlandina Seixas de Moraes, preparava. Segundo ela, é um portal de entrada para o passado. “O doce que me transporta de volta no tempo até a casa da minha avó é um bolo de macaxeira, feito com ingredientes naturais. Minha avó cuidava dos detalhes, ralava a mandioca e depois o coco de onde extraia o leite, que seria utilizado na receita. Lembro do cheiro do bolo assando, do café coado e principalmente do amor da minha avó por nós,” diz Silvana. Ela conta que a primeira lembrança é uma pintura de infância: “Lembro da minha avó separando os ingredientes e começando os preparativos de ralar a macaxeira e o coco e eu sempre estava por perto para observar e beliscar os pedaços do coco,” detalha. Para Silvana, o rito de ralar a raiz fresca e extrair o leite de coco em casa não era apenas uma técnica culinária, mas um investimento de tempo que falava sobre dedicação e presença. Ela revela que a receita está há gerações na família, escrita no caderno que hoje está com as tias, em Belém, capital do Pará, e que toda vez que vai lá, acaba fotografando algumas receitas para transcrever no seu caderno. Lá na memória, ela guarda um segredo. “Lembro que minha avó primeiro untava a forma na qual o bolo seria assado, depois começava a ralar a macaxeira e o coco para extrair o leite, tudo muito natural. Ela sempre utilizava os mesmos utensílios no preparo dos seus doces”, relembra Silvana. Por fim, ela pontua: “Esse é um doce tradicional da culinária paraense, existem várias versões de preparo, mas essa versão feita por minha avó vem carregada de lembranças maravilhosas, de memória afetiva e me transporta imediatamente para a cozinha da casa dela, para o cheiro do bolo sendo assado. Aqui, já não se trata apenas de uma receita, ou de um bolo, mas de todo sentimento de amor, cuidado e carinho envolvidos nesse preparo”. Manter viva a tradição culinária é uma forma de honrar quem veio antes. Ao anotar essas receitas em novos cadernos, Silvana e Viviane garantem que a história não se perca no esquecimento. É um movimento de gratidão. Esse é o legado que nos nutre e nos conecta, fazendo de cada receita uma celebração eterna de afeto.