Brownie, cookies, madeleine entre outras sobremesas icônicas da gastronomia contam com a assinatura de grandes chefs mulheres
É fato que as mulheres sempre foram um enorme destaque quando o assunto é gastronomia. Antes de qualquer manual de confeitaria existir, havia mãos femininas combinando ingredientes, inventando novas receitas e brilhando com resultados icônicos. Dos conventos às cozinhas domésticas, elas criaram sabores capazes de atravessar séculos e marcar gerações. Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, revisitamos histórias de sobremesas que foram inventadas por mulheres. Especialistas na arte de cozinhar, elas combinaram técnica e criatividade para construir alguns dos doces mais famosos – e que fazem parte da confeitaria como a conhecemos hoje.
Do convento à cozinha contemporânea
Antes mesmo de as mulheres serem aceitas nas cozinhas profissionais – algo que só começou no século XVIII, na França -, eram elas quem comandavam a alimentação nos lares e nos conventos. E foi justamente nesses espaços que nasceram alguns dos doces mais emblemáticos. O quindim é um deles. Criado originalmente pelas freiras portuguesas como Brisas do Lis, ganhou novo sabor ao chegar ao Brasil, quando mulheres escravizadas substituíram a amêndoa pelo coco, tornando-se o doce que consumimos atualmente. Ainda, conforme apurado pelo jornal Estadão, o nome da sobremesa é de origem africana, e significa afeto e dengo, o que dá ainda mais simbologia ao delicioso quindim.

Merengues, camponesas e rainhas
Na França, país que é berço de tantas técnicas da confeitaria, a presença das mulheres também foi decisiva. O suspiro (merengue), por exemplo, segundo o Larousse Gastronomique, foi popularizado pela própria rainha Maria Antonieta, que fazia o merengue com as próprias mãos no castelo Petit Trianon, também de acordo com informações apuradas pelo Estadão. Outro grande exemplo é o madeleine, uma sobremesa atribuída à camponesa Madeleine Paulmier. Em 1755, ela preparou o pequeno bolo em formato de concha para o duque Stanislas Leszczynski. Ele ficou tão encantado com aquela receita que decidiu batizá-la em homenagem à criadora. Foi assim que um gesto simples se tornou símbolo da confeitaria francesa.
O acaso também soma à história
Algumas das sobremesas mais icônicas nasceram de improvisos brilhantes. Foi assim com os famosíssimos cookies com gotas de chocolate, criados por acaso por Ruth Graves Wakefield na pousada Toll House, nos Estados Unidos. Ao usar chocolate picado achando que ele derreteria na massa, Ruth acabou inventando o cookie moderno e fechou um acordo histórico com a Nestlé em troca de chocolate vitalício. Ainda, foi também o acaso que gerou a Tarte Tatin (“torta de maçã invertida”), atribuída às irmãs Caroline e Stéphanie Tatin, que teriam deixado a torta cair de cabeça para baixo antes de servi-la, criando a versão caramelizada que atravessou gerações. E há também a torta de limão montada pela primeira vez por Elizabeth Goodwell, que teve a ideia de unir massa quebradiça, creme de limão e merengue, combinação que se tornaria clássica e uma das mais icônicas da pâtisserie.

E o Brasil?
Alguns doces atravessaram os oceanos, mas outros nasceram aqui mesmo, pelas mãos de brasileiras. Um exemplo clássico é a torta holandesa que, apesar do nome, é um doce tradicionalmente do Brasil, criado por Silvia Maria do Espírito Santo, em Campinas, no início dos anos 1990. A sobremesa foi resultado de experimentações em sua cafeteria e, depois do sucesso imediato, ganhou nome em homenagem à família holandesa que a acolheu durante uma temporada difícil na Inglaterra. Outro caso emblemático é o brownie, que não nasceu aqui, mas tem uma relação direta com o país. Segundo uma das teorias de origem, o doce teria surgido no fim do século XIX, nos Estados Unidos, graças a Bertha Palmer, que teria pedido uma sobremesa prática para a Feira Mundial de Chicago, em 1893. Assim foi criado o “Palmer House Brownie”, com nozes e cobertura de damasco. Embora a origem oficial esteja ligada à socialite norte-americana Bertha Palmer, sua popularização contemporânea no Brasil tem muito a ver com mulheres como Simone Izumi, arquiteta que encontrou no chocolate sua linguagem artística e transformou seu amor pela confeitaria em profissão. Seja o quindim, a madeleine ou mesmo o cookie, cada uma das receitas carrega uma história de mulheres que criaram, improvisaram, ousaram ou simplesmente cozinharam com amor. Resgatar essas vozes é reconhecer que a confeitaria, assim como tantas outras áreas da gastronomia, foi construída por mãos femininas que desafiaram regras, atravessaram fronteiras e adoçaram o mundo com dedicação e criatividade.
Sabores que celebram mulheres
A confeitaria também guarda homenagens, receitas que não foram criadas por mulheres, mas dedicadas a elas:
• Pavlova, merengue leve criado em homenagem à bailarina russa Anna Pavlova;
• Pera Belle Hélène, batizada por Auguste Escoffier em tributo à personagem Hélène da ópera de Offenbach;
• Pêssego Melba, dedicado à soprano australiana Nellie Melba.

