A panqueca foi reinventada ao longo dos séculos e conquistou culturas ao redor do mundo, tornando-se queridinha em diferentes países

Macias ou crocantes, doces ou salgadas, finas ou fofinhas: poucas receitas são tão conhecidas mundialmente quanto a panqueca, em seus mais variados formatos. Em cada canto do planeta, essa iguaria tem uma forma, um sabor, uma identidade. Na Holanda, ela se destaca por ser servida como um círculo grande e repleto de recheio. No Brasil, vem enroladinha, coberta com molho e gratinada. Nos Estados Unidos, é alta, fofa e empilhada com generosidade. Apesar da receita fácil, quando levamos em conta sua trajetória milenar, seu simbolismo cultural e sua impressionante diversidade global, percebemos que a panqueca é muito mais que um prato — é um fenômeno! É raro encontrar um alimento simples, e ao mesmo tempo tão universal, não é mesmo? Mas a panqueca foi ganhando fãs ao redor do mundo e passou a integrar diferentes cozinhas, além de ser adaptada aos ingredientes, aos gostos e às tradições locais. E é provável que seu grande diferencial seja, de fato, a sua versatilidade. Há algumas histórias referentes à sua origem. Mas acredita-se que a panqueca é muito antiga, aparecendo muito antes de qualquer manual de gastronomia. Não à toa, seus primeiros registros surgem na forma de evidências arqueológicas. Pensando em sua tradição milenar, nossa edição do Cultura do Prato desvenda algumas curiosidades sobre este prato tão icônico em diversas gastronomias pelo mundo.

Milhares de anos

Uma escavação no complexo da caverna de Shanidar, no atual Iraque, revelou restos carbonizados de alimentos preparados por neandertais há cerca de 70 mil anos. E acredite se quiser, ao reproduzirem a receita com sementes amassadas e cozidas, os cientistas chegaram a um alimento de textura achatada, com sabor de nozes e aparência semelhante a uma panqueca — uma espécie de “protopanqueca”. É isso que mostrou uma reportagem aprofundada feita pela Casa & Jardim. Segundo as informações, essa descoberta identificou que a panqueca, em sua essência, pode ser considerada uma das primeiras expressões de cozinha elaborada da humanidade.

Dos gregos ao termo “pancake”

Os primeiros registros escritos sobre o prato remontam à Grécia Antiga. No século V a.C., o poeta Cratinus no século V a.C. descreveu em seus textos algo muito parecido com a receita da nossa iguaria. Séculos depois, o médico Galeno, já no Império Romano, também menciona panquecas fermentadas em seus tratados alimentares.

Também de acordo com as informações trazidas pelo Casa & Jardim, no mais antigo livro de receitas em latim, atribuído ao romano Apicius (25 a.C. – 37 d.C.), há uma fórmula de “ova sfongia ex lacte” — uma mistura de ovos com leite batida como esponja, frita, mas ainda sem o uso de farinha.

No Reino Unido, a panqueca ganhou até uma data especial: a “Pancake Tuesday”, ou Terça-feira de Panquecas. Celebrada antes do início da Quaresma, essa tradição remonta à ideia de usar todos os ingredientes “proibidos” durante o jejum, como ovos, açúcar e gordura. Desde 1777, esse nome já circulava informalmente e a iguaria aparece até mesmo em peças de William Shakespeare.

O termo “pancake (panqueca, em português)”, como conhecemos hoje, surgiu apenas no século XV na Inglaterra, significando algo como “bolo de panela”. Mas seu uso se popularizaria mesmo a partir do século XIX, com os norte-americanos adotando o nome para suas versões mais altas e fofinhas.

Chegada ao Brasil

Na América Colonial, as panquecas vieram acompanhadas de nomes variados: bolos de enxada, bolos de trigo sarraceno, bolinhos de viagem. As primeiras versões eram feitas com trigo sarraceno ou fubá. A panqueca americana moderna, alta e fofa, regada com xarope de bordo, é apenas uma entre dezenas de versões pelo mundo, mas foi essa imagem que popularizou o prato em filmes, desenhos animados e cafés de hotel.

No Brasil, a panqueca se abrasileirou, como grande parte das receitas que chegam ao nosso país. Inspirada na versão francesa e americana, mas adaptada ao paladar local, ela ganhou um lugar especial nas refeições como almoço e jantar. Recheios de carne moída, frango, queijo e até legumes, cobertos com molho vermelho e levados ao forno, criaram um clássico das cozinhas familiares.