Com pratos principais e sobremesas carregadas de significados religiosos e históricos a data valoriza a tradição gastronômica de cada país
Uma das datas mais importantes do calendário ocidental, a celebração da Páscoa é um momento de enorme significado religioso, mas também de renovação dos laços familiares e vínculos afetivos. E mesmo que a troca e a partilha de ovos de chocolate seja o gesto bastante emblemático dessa data em relação ao reforço de conexões pessoais, é o encontro à mesa o ponto alto do domingo de celebração.
No Brasil, os cardápios do almoço da Sexta-feira Santa e do Domingo de Páscoa são carregados de tradições, unindo a memória portuguesa e o costume cristão de praticar abstinência de carne vermelha, um momento de reflexão e que pede práticas de jejum no entendimento da Igreja Católica.
Por isso, a preferência é para opções culinárias que tenham o peixe como ingrediente principal, uma carne leve e que tem um significado muito forte no cristianismo. O bacalhau, em suas mais variadas formas de preparo, o atum, o salmão, a tilápia, o camarão e os frutos do mar são consagrados no prato central do almoço, além do acompanhamento de praxe das sobremesas, como a colomba pascal e os doces caseiros.

Já outros países têm a sua própria tradição gastronômica na Páscoa, no qual algumas vezes o peixe deixa de ser o protagonista, dando lugar a outras carnes, diferentes técnicas de preparação culinária e com ingredientes pouco familiares ao paladar dos brasileiros. Que tal então embarcar em uma viagem ao redor do mundo para conhecer pratos salgados e sobremesas que ajudam a compor o clima de celebração?
Do cordeiro aos caldos
A Páscoa é uma data adorada pelos canadenses, pois vem acompanhada de um feriado prolongado, com a Sexta Santa (Good Friday) e a Segunda-feira de Páscoa (Easter Monday). E o consumo de chocolates é uma tradição séria no país, indo além de chocolates em formato de ovo. Um doce típico é o cadbury creme eggs, casquinhas de chocolate recheadas com creme. Já no almoço de domingo, o destaque fica com mustard-crusted lamb (cordeiro com mostarda), além de bolos e um pequeno pãozinho chamado de hot cross buns, uma herança inglesa.
Nos Estados Unidos, os costumes gastronômicos na Páscoa são bem parecidos com o dos vizinhos canadenses. Além do cordeiro assado e dos pequenos pãezinhos, o presunto assado no forno marinado e picante, acompanhado por batatas e legumes, aparece nos encontros gastronômicos das famílias estadunidenses. Há também uma interessante variação de doces, como o sweet egg bread (pão doce de ovo), o bolo simnel (um bolo de frutas de receita britânica) e os biscoitos de Páscoa, outro traço da colonização inglesa na região.

Mais ao sul, o México tem a capirotada como símbolo da mesa de Páscoa e da Quaresma. Uma espécie de pudim de pão frito com nuances de sabores salgado e doce, a sobremesa também leva ingredientes, como: queijo envelhecido, canela, nozes, especiarias e calda de piloncillo, a rapadura mexicana. A receita e os seus ingredientes apresentam um forte significado religioso, com o pão representando o corpo de Cristo, a calda o sangue, e os cravos e paus de canela remetendo aos pregos e à cruz.
Os nossos vizinhos hermanos também contam com pratos representativos para a data. Na mesa das famílias argentinas – onde a carne não é bem-vinda à celebração -, a preferência é pela torta pascualina, recheada de espinafre e ovos inteiros. Já o banquete de outros países tem sopas e caldos como protagonistas, caso da fanesca, no Equador (em que os 12 grãos representam os 12 apóstolos), do caldillo de congrio, no Chile, do chupe de camarones, no Peru, e do sancocho de pescado, na Colômbia, além da América Central e do Caribe. Também protagonistas entre as sobremesas, estão a rosca de Pascua, em forma de coroa, com creme e frutas, e muitos doces caseiros.
Variedade europeia
Os países do continente europeu também guardam um cardápio sortido, em que cada um tem ao menos um prato típico para ser compartilhado. Na França, assim como acontece no Canadá (onde a colonização francesa foi muito presente), a carne de cordeiro (agneu pascal) é o principal sabor do almoço de Páscoa. Temperado com especiarias simples e aromáticas, assado lentamente, costuma receber um toque final de mostarda Dijon ou manteiga aromatizada. Geralmente, as partes escolhidas do cordeiro são a perna (gigot) e o carré, corte nobre do lombo com as costelas.
Outro lugar em que o cordeiro é representativo no almoço de Páscoa é na Grécia. Refletindo a forte tradição familiar e religiosa cristão ortodoxa do país, o prato arni psito vem a ser o cordeiro assado inteiro, no espeto e por várias horas, com recheio de arroz, batatas e ervas, e temperado com tzatziki, o clássico molho de iogurte com pepino e hortelã. É muito comum que esse preparo aconteça ao ar livre, e que a carne consiga um sabor defumado e uma textura macia após ficar girando sobre brasas. É, ainda, uma tradição mantida pelas famílias gregas servir, à meia-noite de sábado, a sopa aromática chamada magiritsa, com os miúdos do cordeiro.
Pratos tradicionais
• Morcon (Filipinas): um rolo de carne bovina recheado com linguiça, ovos cozidos, cenoura, queijo e pepino em conserva, cozido em molho e servido com arroz;
• Doro wot (Etiópia): picante, espesso e aromático, este ensopado de frango é preparado com mistura de especiarias, manteiga clarificada e ovos cozidos;
• Kozunak (Bulgária): um pão doce fermentado e aromatizado com baunilha, de massa rica e macia, que cria fios longos e delicados ao ser rasgada;
• Sonka (Hungria): um presunto suíno curado e servido em fatias grossas, geralmente salgado ou defumado, é cozido lentamente com especiarias.
Além do prato salgado, os gregos têm uma sobremesa muito famosa no almoço de Páscoa. O tsoureki é um pão doce trançado em uma massa macia, muito semelhante ao brioche, e decorado com ovos cozidos tingidos de vermelho. O sabor do tsoureki é único graças a especiarias pouco comuns na confeitaria brasileira, como o mahlepi, feito a partir do caroço de uma cereja silvestre, e da mastilha, uma resina aromática. No vizinho Chipre, outro prato ligado às comemorações da Páscoa e às celebrações do fim da Quaresma é o flaounes, uma espécie de torta salgada com recheio de queijo halloumi, produzido com leite de cabra. Hortelã seca, gergelim e mahlepi dão o toque final à iguaria cipriota.

Para os ingleses (e moradores da Grã-Bretanha em geral), a Páscoa também é sinônimo de cordeiro assado, o roast lamb, servido com molho de hortelã (mint sauce), legumes da primavera, como ervilhas e cenouras, além de batatas assadas. Já para os amantes dos doces, os pãezinhos hot cross buns disputam espaço na mesa e na preferência das pessoas com o simnel cake, um bolo de frutas tradicional e preparado com duas camadas de marzipã. Já para os holandeses, a sobremesa perfeita é o advocaat, um doce feito à base de creme de gemas de ovo, brandy e açúcar, com doses generosas de chantilly como acompanhamento.
Mais sabores
Ainda no continente europeu, a Espanha é outro lugar onde a abstinência de carne na Semana Santa é levada muito a sério. Por isso, o bacalhau tem seu espaço entre os espanhóis, que o chamam de “bacalao”. Os modos de preparo prediletos são o bacalao a la vizcaína, com molho de pimentões, e o bacalao al pil-pil, com emulsão de azeite e gelatina do peixe. No almoço da sexta, o bacalhau aparece acompanhado por grão-de-bico e espinafre no potaje de vigília, um ensopado tradicional. Os doces espanhóis, famosos no mundo inteiro, não ficam fora da confraternização de Páscoa, com destaque à mesa para as torrijas, a rabanada espanhola feita com pão embebido em leite ou vinho, frito e finalizado com açúcar, mel ou canela.

A Rússia também tem seus símbolos pascais à mesa. O mais emblemático é o kulich, um pão doce alto, semelhante a um panetone, que leva frutas e especiarias, e uma cobertura de glacê branco. Uma curiosidade é que se costuma decorar o pão com as letras “XB”, iniciais de Christos Voskrese (Cristo Ressuscitou). Já a pashka é uma sobremesa cremosa e fria, que leva tvorog, um queijo fresco semelhante ao cottage, frutas secas e nozes. Moldada em formato de pirâmide, simboliza o túmulo de Cristo, o que demonstra a forte relação do povo russo com a data.
Vizinhos dos russos, os poloneses, uma das populações mais identificadas com o cristianismo na Europa, tem no mazurek um símbolo da celebração. Montado sobre uma base de massa amanteigada, recheado com frutas secas, nozes e geleias, e uma cobertura de glacê colorido ou chocolate, esse bolo fino e delicado é servido após o período de jejum da Quaresma, como um desejo de fartura. Outro país do leste europeu com tradição de comemoração da Páscoa, a Romênia também tem no cordeiro um símbolo gastronômico da data. Pratos, como o friptură de miel (cordeiro assado) e o ciorbă de miel (sopa azeda de cordeiro), são saboreados pelas famílias romenas, que tem o costume de levar os alimentos à igreja para serem abençoados na noite de sábado.
Colomba Pascal
Uma espécie de “panetone da Páscoa”, a colomba pascal é um dos símbolos mais fortes da data para os italianos, unindo tradição religiosa e a história da confeitaria artesanal. Para além de um simples pão doce, seu preparo e consumo são carregados de significado cultural e espiritual. Um bolo de massa macia e aerada, preparado com fermento natural, a colomba leva em seu recheio frutas cristalizadas (sem uvas-passas), ganhando na finalização uma cobertura crocante de açúcar, claras e amêndoas inteiras.
O nome colomba (pomba, em português) tem relação com o formato, uma vez que a pomba simboliza valores centrais da Páscoa cristã, como paz e ressurreição. Há lendas medievais que associam o doce à cidade de Milão, mas a versão moderna da colomba ganhou força no século XX, quando confeiteiros italianos adaptaram a técnica do panetone para criar um doce específico para o domingo pascal. Visto como um presente habitual nesta época do ano, o bolo de Páscoa costuma ser servido no encerramento do almoço celebrativo.


