Drinks, Vinhos, cervejas e destilados sem álcool conquistam novos consumidores e mostram que sabor e sofisticação independem do teor alcoólico

Oque há poucos anos parecia uma tendência passageira se consolidou como uma vertente do mercado de bebidas. Nas prateleiras, cervejas, vinhos e destilados sem álcool são cada vez mais comuns.

A busca por opções com baixo teor alcoólico começou a desenhar um novo cenário a partir dos anos 2000, inicialmente como um produto específico para um público seleto. No Brasil, país conhecido por suas celebrações à mesa, o crescimento desse mercado dependia de uma mudança de comportamento: e ela aconteceu.

Segundo a pesquisa do Ipsos-Ipec, para o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), a abstinência de álcool no Brasil aumentou de 46% para 64% entre as pessoas de 18 a 24 anos, e isso reforça que a relação com o copo já não é mais a mesma.

Cada vez mais, a busca por bem-estar e qualidade de vida influencia as escolhas de consumo e as formas de socialização. As confraternizações já acolhem diferentes ritmos e preferências, considerando a pluralidade à mesa, e o mercado encontrou espaço para oferecer opções que passam longe da simplicidade dos refrigerantes para entregar sabor, complexidade e sofisticação.

O processo de desalcoolização

As bebidas alcoólicas tradicionais têm processos de produção distintos, mas a maioria compartilha a etapa de fermentação, em que microrganismos transformam os açúcares em álcool etílico. Para a criação de uma versão zero de alta categoria, o desafio consiste em remover o álcool após a bebida-base estar pronta, mantendo a integridade da receita.

Já que a fermentação é a responsável por traços fundamentais, como: aromas, gosto e coloração, o método preserva essa etapa inicial. As marcas mais prestigiadas utilizam a fervura a vácuo, processo que possibilita que o álcool evapore em temperaturas mais baixas por meio da alteração da pressão física. Isso protege as características sensoriais mais delicadas do produto original.

A evolução no copo: das cervejas aos destilados

Se hoje o mercado se sofisticou, o primeiro passo foi dado pelas cervejas. A evolução técnica permitiu que as notas de lúpulo, o amargor característico e a cremosidade da espuma fossem preservados. Longe de ser um plano B, a complexidade das IPAs e a leveza das Witbiers sem álcool conquistaram a mesa. Elas cumprem o papel gastronômico de cortar a gordura de carnes mais encorpadas ou acompanhar pratos tropicais com leveza.

Na esteira dessa inovação, o universo do vinho — historicamente mais conservador — assiste a sua própria evolução. Produtores entenderam que a essência de um bom rótulo reside no terroir e na casta. Rótulos chilenos e espanhóis lideram esse movimento, entregando brancos de acidez vibrante e tintos que preservam os taninos macios e as notas de frutas maduras. Na gastronomia, eles acompanham massas e carnes vermelhas.

Até a coquetelaria foi redesenhada, indo muito além da antiga e doce tríade de xarope industrial, água com gás e gelo. Os chamados coquetéis sem álcool, ou mocktails, ganharam complexidade. Bartenders agora combinam infusões de especiarias e destilados botânicos sem álcool — como o gin e aperitivos zero — para criar bebidas com camadas de sabor e persistência no paladar.

A alquimia das novas bebidas

Replicar a experiência do álcool sem usá-lo exige uma engenharia complexa de ingredientes. Para compensar o calor e a picância que o tradicional traz à boca, a indústria recorre a blends botânicos complexos, extratos de especiarias como gengibre e pimenta, e infusões de cascas cítricas. São esses elementos que conseguem simular a estrutura, a adstringência e o rastro de sabor que o paladar espera de um bom drink.

O mercado se move rápido porque o público ficou exigente. Não basta apenas retirar o volume alcoólico; é preciso entregar rigor técnico e riqueza aromática. Essas bebidas não vieram para excluir o formato tradicional, mas para inaugurar um leque inédito de possibilidades na gastronomia.

O repertório aumentou, permitindo novos contrastes e harmonizações. No fim das contas, mudar o hábito também é uma excelente forma de brindar.